ESTUDOS SOBRE O COMUNISMO

Notas , perguntas , bibliografias , estudos sobre a historia do comunismo em Portugal e no mundo
E-mail : jppereir@mail.telepac.pt

22.8.03

SOBRE A TORTURA

Nota enviada pelos Avatares do Desejo sobre a tortura:

"Estando o tema do corpo/dor/sofrimento entre as minhas preocupações académicas, queria apenas partilhar com os Estudos sobre o comunismo algumas contribuições de ordem teórica advindas de algumas leituras recentes que julgo poderem ser pertinentes:

Scarry, Ellen, 1985, The Body in Pain, Oxford University Press, Oxford.

Scarry ilustra assim o paradoxo do exercício da tortura por um poder político:

The physical pain is so incontestably real that it seems to confer its quality of "incontestable reality" on that power that has brought into being. It is, of course, precisely because the reality of that power is so highly contestable, the regime so unstable, that torture is being used.

Reflecte sobre a ideia de traição nas confissões sob tortura a partir da ideia que dor extrema conduz ao unmaking of the world:

What is meant by "seeing stars" is that the contents of consciousness are, during those moments, obliterated, that the name of one's child, the memory of a friend's face, are all absent. But the nature of this "absence" is not illuminated by the word "betrayal." One cannot betray or be false to something that has ceased to exist and, in the most literal way possible, the created world of thought and feeling, all the psychological and mental content that constitutes both one's self and one's world, and that gives rise to and is in turn made possible by language, ceases to exist.
...
The confession is one crucial demonstration of this absent world, but there are others. "

NOTAS BIOGRÁFICAS - JÚLIO JOSÉ CRISTO LUZ

(Sesimbra, 1921 – Lisboa, 21/7/2003)

Caixeiro viajante, militante do PCP na clandestinidade na freguesia de Cruz Quebrada / Dafundo. Depois do 25 de Abril continuou a militar na área da sua residência.

Fonte: Avante!, 14/8/2003

20.8.03

NOTAS BIOGRÁFICAS - FRANCISCO DIAS DA COSTA

( Évora, 1923 - Tavira , 8/8/2003)

Advogado e escritor. Ligado ao PCP desde o fim da década de 40. Militante do MUDJ foi preso em 1947. Participou na campanha eleitoral de Norton de Matos em 1949. É preso de novo em 1955. Activista da campanha de Humberto Delgado em 1958. Residente no Algarve desde 1959, actuou a partir daí nos meios locais da oposição. Em 1970 fez uma viagem por vários países socialistas de que resultou uma memória intitulada No mundo dos lilases: breves notas de viagem à Checoslováquia, à União Soviética e à Polónia passando pelas Alemanhas, 1970
Em 1973 apresenta uma tese com o título de O Povo português a caminho da Democracia ao III Congresso da Oposição Democrática.
Depois do 25 de Abril foi membro do Conselho Português para a Paz e Cooperação e da União de Resistentes Antifascistas Portugueses. Era membro da organização do PCP de Tavira.
Dias da Costa era autor de uma larga bibliografia que incluía poesia, textos sobre temas algarvios. Entre os livros que publicou inclui-se Canto da longa madrugada: para os heróis proibidos (1978); Concerto em sol maior (1979 ); Anamnese da esperança e outros poemas (1981).; A meditação da esperança: poemas. (1988); Maravilhoso Guadiana: as grandezas, as misérias, o mistério (1991); O outro lado: poemas (1995) ; Floridas na pedra: a hidrografia do Vascão e a Serra do Caldeirão ou Mu: o homem e o meio (1996) ; As apóstrofes e outras páginas: poemas (1997).
O seu último livro foi Incomoda Memória (2003).

Fontes:

Avante!, 14/8/2003 ;

Imprensa local algarvia, Agosto 2003

17.8.03

Manuel Villaverde Cabral - SOBRE O II VOLUME DA BIOGRAFIA DE CUNHAL

Graças à notoriedade do autor e do biografado, o primeiro volume da biografia de Álvaro Cunhal publicado por José Pacheco Pereira (JPP) foi êxito editorial (Álvaro Cunhal: uma biografia política. “Daniel”, o jovem revolucionário (1913-1941), Temas e Debates, Lisboa, 1999). Mas a verdade é que talvez não lhe tenha sido feita toda a justiça, nomeadamente nos meios académicos. Para além das distracções habituais, há algumas razões para isso. O livro é extenso e convoca uma época e um conjunto de personagens que a maior parte dos Portugueses não conhece e muitos não querem conhecer. O período coberto pelo volume – basicamente, os anos 30 do século passado – corresponde a uma época verdadeiramente negra da nossa história e nem os próprios protagonistas do livro – Álvaro Cunhal e os seus camaradas do PCP – parecem demasiado interessados em recordá-la.

E todavia, ele merece a todos os títulos a atenção dos historiadores, para não falar de quem se interessa pela vida política e cultural do país. Trata-se, com efeito, de um grande livro. Era sabido que o autor há muito se vinha dedicando à pesquisa sobre a história do PCP e do movimento internacional em que o partido cedo se integrou. Mas podia recear-se que as múltiplas actividades públicas de JPP o tivessem desviado daquele trabalho. Não foi o caso. Depois da importante mas efémera revista Estudos sobre o Comunismo, o primeiro volume da biografia de Álvaro Cunhal confirmou o melhor que se podia esperar das anteriores pesquisas do autor.

Com a extensão e a minúcia de uma investigação universitária, o livro tem contudo o fôlego e o ritmo de um romance. E lê-se como tal. Abdicando de um elaborado enquadramento histórico e sociológico lhe teria dado, porventura, mais consistência, a opção de JPP pela narrativa biográfica de Álvaro Cunhal e dos seus camaradas permitiu-lhe, em contrapartida, reconstituir “outro Portugal” - esse Portugal virtualmente ignorado que resistiu com tenacidade e heroísmo à violência da instauração do fascismo, à propaganda triunfalista do novo regime e à sua brutal repressão, à prisão, à tortura, à deportação e ao assassinato. Neste sentido, o livro chegava a ter algo de patriótico, no melhor sentido da palavra, ao contribuir para restaurar alguma auto-estima perdida pelos Portugueses durante décadas de submissão à ditadura.

E conseguia outra coisa notável. Sem deixar de denunciar frontalmente aquilo que lhe parece criticável nas actividades do PCP, da Internacional Comunista e do próprio Cunhal, JPP mantém ao longo do livro uma exemplar corrente de empatia crítica com os seus personagens. É de prever que Álvaro Cunhal nunca se pronuncie publicamente sobre esta biografia, mas lá no íntimo ficou com certeza lisonjeado com o lugar que JPP lhe reconhece na história da sua geração e, afinal, do próprio país. E terá de admitir também o rigor com que o biógrafo se absteve de qualquer incursão desnecessária na vida privada do biografado.

Em contrapartida, apesar da finura e minúcia com que o autor tentou reconstituir o ambiente familiar e a sua influência na formação do jovem Cunhal, tenho algumas dúvidas quanto às motivações de índole psicanalítica que JPP por vezes lhe atribui. Em compensação, parece-me excelente e verosímil o perfil psicológico que ele traça do biografado: um jovem invulgarmente dotado, cuja fibra e mesmo dureza o seleccionaram, ao cabo de poucos anos de militância incondicional, para o tremendo lugar de líder de um pequeno partido clandestino e isolado não só na sociedade portuguesa da época como na própria organização internacional em que o PCP sempre pretendeu integrar-se.

JPP não deixa dúvidas quanto às excepcionais qualidades pessoais e intelectuais que projectaram Álvaro Cunhal para o lugar – complexo e mesmo ambíguo, mas absolutamente indiscutível – que acabou por ser o seu na história de Portugal no século XX. Não é nada que não se reconhecesse já ao líder comunista, mas é outra coisa vê-lo aqui documentado de forma historicamente rigorosa e, ao mesmo tempo, com lucidez e imparcialidade.

Finalmente, se houver lacunas e mesmo erros no trabalho de JPP, a responsabilidade não é dele mas sim dos vários totalitarismos – fascista e comunista – que impediram e continuam a impedir que este período sombrio da nossa história seja melhor conhecido. JPP marca pontos ao denunciar o “secretismo” que o PCP continua a manter acerca da sua história e tem certamente razão quando atribui a Álvaro Cunhal um pendor particular para o segredo, não só acerca do partido como da sua própria vida pessoal. Não será por acaso que nem o PCP nem Cunhal se queixaram, que eu saiba, das eventuais inexactidões do livro: é que não lhes convém entrar num debate verdadeiramente esclarecer sobre o assunto. E é pena.

Nesse primeiro volume, JPP descrevia o caminho percorrido por Álvaro Cunhal até se entregar definitivamente, no início desse longínquo e terrível ano de 1941, à luta clandestina contra a ditadura e conquistar o prestígio que o levaria, mais tarde, ao topo da hierarquia do PCP. Nada disso se passou, contudo, sem lutas intensas dentro e fora do partido. Já não é este o momento para os comentar. Bastará lembrar como o partido, com a Guerra de Espanha e a intensificação daquilo a que Nolte chamou, apropriadamente, a “guerra civil europeia”, se tinha afundado na maior desorientação quando Cunhal foi preso pela primeira vez, e só dela sairia, já irradiado pelo Comintern, no início dos anos 40 com a viragem na Guerra Mundial.

Entretanto, a partir de 1939, Cunhal tinha tido oportunidade de pôr todas as suas capacidades intelectuais ao serviço do PCP, desempenhando um papel decisivo no movimento frentista da nova geração de intelectuais anti-fascistas, que permitiu ao PCP exercer sobre a intelectualidade portuguesa uma influência que nunca tinha tido e lhe assegurará, durante décadas, uma inesperada hegemonia ideológica sobre a vida cultural do país.

JPP lança, pois, no 1.º volume da biografia de Álvaro Cunhal uma luz nova sobre essa década de Trinta em que o fascismo se implantou em Portugal. Este será, sem dúvida, o contributo mais duradouro desse livro de rara visão histórica. No ambiente triunfal do fascismo, o PCP e o seu punhado de militantes, embora acossados e minoritários, surgem pois, com a sua indomável resistência, como um último reduto de liberdade. Em suma, Pacheco Pereira captou como ninguém a importância real do PCP e a aura de legitimidade de que usufruiu durante décadas, sem as quais a nossa história recente não se entenderia.

Embora não o tivesse dito na altura, confesso no entanto que cheguei a pensar que não seria fácil ao autor manter, por assim dizer, as expectativas criadas pelo 1.º volume. Não tanto por dificuldades dele, mas pelo próprio conteúdo da pesquisa – o 1.º vol. lidava com os anos 30, recuperando a aura trágica e heróica que aqueles anos, associados ao próprio ardor juvenil do biografado, que me parecia difícil de manter nos períodos subsequentes, de algum modo mais complexos mas, porventura, menos auráticos.

Pois bem, nada disso aconteceu. Pelo contrário. JPP mantém neste segundo volume a sua aposta apoiada no mesmo estilo narrativo directo, entremeando com naturalidade e eficácia a acção do biografado e dos seus camaradas do PCP com um discreto comentário analítico, que não sobrecarrega a narração nem condiciona a liberdade interpretativa dos leitores, mas permite ao autor fornecer a sua própria interpretação dos dilemas e opções com que Cunhal e o partido se defrontaram ao longo da década seguinte – os anos 40!

Em compensação, o autor perdoar-me-á que não o esconda, se o 1.º volume, apesar de se ler como um romance, já me tinha parecido extenso, bem, o 2.º volume mais espesso é ainda. Trata-se pois de um livro grande. Mas não deixa de ser, como o primeiro, sem o qual não pode aliás ser lido, um grande livro. É verdade que continua a ler-se com a avidez romanesca de quem quer saber depressa o que se passou a seguir mas, devido à própria abundância crescente de documentação e informação, tanto nacional como estrangeira, torna-se às vezes difícil não saltar uma páginas para satisfazer a curiosidade, sobretudo que a maioria dos leitores, incluindo um habitué da história do PCP como eu, desconhece de facto inúmeros episódios relevantes da vida interna e externa do partido!

Em suma, o livro é comprido, leva bastante tempo a ler, mas o autor acaba sempre por nos convencer, a posteriori, que todos aqueles pormenores – por vezes um bocadinho fastidiosos, como são sobretudo os debates ideológicos e organizativos da época – são importantes e, sem eles, não seria fácil entender factos supostamente conhecidos. Enfim, acresce que JPP tinha na mão uma quantidade impressionante de informação histórica que não terá resistido à legítima tentação de pôr, pela primeira vez, ao alcance do público. Este contributo é absolutamente precioso e, por isso, lhe serão perdoadas algumas horas de leitura que, hoje em dia, temos dificuldade em conceder à maioria dos livros.

A estratégia narrativa não muda e só posso render-me ao folêgo que o JPP revela ao manter o mesmo ritmo e o mesmo tom do princípio até ao fim e, agora, já não duvido que assim será nos próximos volumes da biografia. Quando parece afastar-se um pouco do fio narrativo, é para recriar a dimensão pessoal, subjectiva, da biografia. Com efeito, por mais numerosos e extensos que sejam, e são, os desenvolvimentos sobre os seus companheiros, sobre a actividade do partido, sobre as lutas sociais e políticas, e sobre os aliados e adversários do PCP, estamos ainda e sempre perante a biografia de uma pessoa, Álvaro Cunhal, com a sua idiossincrasia.

O longo preâmbulo acerca das relações – simultaneamente, estéticas, políticas e pessoais – entre Cunhal e Abel Salazar, na aparência desligado dos capítulos seguintes, serve precisamente esse propósito biográfico de compor, por assim dizer, a personalidade de Cunhal tal como JPP a vê. Em suma, um homem inteligente, culto e corajoso, mas inteiriço e a seu modo “religioso”, para quem “o compromisso é mais importante do que a causa que serve” (p. 16). Já manifestei alguma perplexidade perante a interpretação que JPP faz da personalidade do seu biografado, mas tenho de reconhecer que ele é capaz de reconduzir muitos dos comportamentos e decisões de Cunhal a essa matriz pessoal, ao mesmo tempo que também não faz dela uma mera explicação psicológica passe-partout...

Finalmente, quando retoma de vez na narrativa, um pouco antes onde a deixara no volume anterior, quando Cunhal decidiu passar definitivamente à clandestinidade com 28 anos incompletos, JPP vai dar-nos o primeiro estudo original e consistente da famosa “reorganização do PCP”, da qual todos ouvimos falar e de cuja importância muitos tínhamos consciência, mas acerca da qual pouco sabíamos ao certo, contentando-nos geralmente com um resumo demasiado esquemático da versão oficial dos vencedores.

Aqui, JPP faz absolutamente questão em demonstrar – e até prova em contrário, que nem a abertura dos arquivos do PCP poderia, porventura, fornecer, mas o ónus dessa prova fica com o partido – que a reorganização se iniciou sem Cunhal, que aliás não tinha então estatuto nem talvez idade para tal. A verdade, porém, é que JPP mostra também que, mercê das contingências da clandestinidade, da repressão e da própria conjuntura de guerra (estamos em 1940-42), a adesão um pouco tardia de Cunhal ao grupo dos proclamados reorganizadores não só lhe permitiu rapidamente conquistar um lugar insubstituível no núcleo dirigente do PC, de início inter pares e em breve primus, como trouxe, como agora se diz, uma mais-valia indiscutível à reorganização.

Em suma, através de todas essas contingências, mais as intrincadas ramificações internacionais, o novo secretariado, cuja composição humana e social JPP descreve e analisa virtualmente pela primeira vez, conseguiu sem qq ajuda da URSS, antes pelo contrário, não só inflectir e consolidar a orientação do partido como, na realidade, construir – contra todas as probabilidades – um novo partido comunista. O papel de Cunhal é decisivo e, para bem ou para mal, nunca mais deixará de o ser. Poderíamos, se fosse caso disso, ficar já por aqui a discutir a reorganização e o novo PCP que dela sai, pois estas 200 e tal páginas (max 212 passim) constituem, por si sós, um livro que fazia falta para compreender muito da história social e política portuguesa desde os anos 40 até, pelo menos, ao 25 de Abril: basta pensar que data dessa altura o início da publicação clandestina ininterrupta do ‘Avante’! Por mim, teria um sem número de perguntas a fazer ao JPP sobre todo este processo (questão das libertações do Tarrafal e dos alegados apoios dos aliados, max GB, aos reorganizadores, max Avante: de onde vinha o ‘papel bíblia’?).

Adiante, porém. Na 2.ª parte deste volume enciclopédico, o autor volta a oferecer-nos outra première: ou seja, outro estudo virtualmente inédito nos seus pormenores sobre as grandes greves operárias do início dos anos 40 (1942-46) que permitiram ao novo PCP testar não só o seu apelo ideológico mas, sobretudo, a sua capacidade organizativa para enquadrar e se enraizar, para as próximas décadas, junto dos sectores mais combativos da classe operária portuguesa, nomeadamente em Lisboa e na Margem Sul. As greves dos anos 40 já tinham sido parcialmente estudadas (por Fátima Patriarca na sua Questão social no Salazarismo), mas tipicamente de forma corporativa, (vol. 2, p. 628), sem a visão política e partidária que lhes dá todo o seu sentido – quase mítico – não só para o PCP como para a oposição anti-fascista em geral. Com efeito, destas greves – como aliás de qualquer movimento que, obrigatoriamente, põe em causa a “ordem pública” – o que fica, politicamente, não é tanto o êxito das reivindicações pontuais nem as reacções do aparelho do estado corporativo, mas os ganhos organizativos e a memória da luta enquanto tal.

Tanto assim que é a partir deste momento que a oposição não-comunista entrega, por assim dizer, a hegemonia política da classe operária ao PCP, numa espécie de divisão do trabalho que se manterá praticamente inalterável até ao 25 de Abril. Pelo seu lado, o partido – já então sob a condução estratégica de Álvaro Cunhal – não deixou de tirar partido das greves para consolidar os seus ganhos organizativos e a sua influência ideológica no congresso de 1943 – o primeiro realizado na clandestinidade. O balanço que JPP faz deste congresso


Um partido nacional – na realidade, o único movimento de oposição minimamente organizado; uma máquina organizativa clandestina sem paralelo na época nem depois (os funcionários; a imprensa, etc.); e tudo isto sem qq apoio do movimento comunista, do qual continua isolado, e angariando todos os seus recursos internamente; uma aliança entre operários e intelectuais, que se reflecte na composição dos quadros dirigentes (importância do movimento neo-realista como ‘fonte de recrutamento e apoio logístico e financeiro)...

A questão da unidade anti-fascista e do “reviralhismo”; o fim da guerra e as imensas esperanças criadas; o congresso de 1946 e o “apogeu do PCP” (discutir!); teses e fracções partidárias em presença, divididas quanto à “política de transição”; a entrada na ‘guerra fria’ e o desvanecimento das esperanças; a adaptação às novas condições (os movimentos unitários e o conflito crescente com os sectores não-comunistas, até á campanha Norton de Matos); a exposição do aparelho clandestino às movimentações de massas e, consequente/, às polícias; a prisão de Cunhal e Militão Ribeiro.

A forma – sempre entre trágica e épica – com que JPP termina a sua longa narrativa, cheia como um ovo, com a prisão do seu herói, - “Naquela casa do Luso (dia 25 de Março de 1949), no meio do nervosismo geral, da alegria alarve dos agentes da PIDE e do estado de choque dos presos (Cunhal; Militão, que iria sucumbir na cadeia aos 53 anos, menos de um ano mais tarde; e Sofia Ferreira), acabava uma era da história da luta da oposição portuguesa e do PCP” (p872), a forma como este novo volume encerra, dizia eu, deixa-nos literalmente suspensos dos próximos volumes. De uma forma oblíqua, observando a realidade portuguesa do ponto de vista singular, minoritário e mesmo inesperado do PCP, JPP continua a dar-nos, na minha opinião, a representação mais dinâmica e, a seu modo, mais exacta da nossa sociedade ao longo dos anos da ditadura: uma espécie de contra-história que se revela, politicamente, tão autêntica, senão mais, do que a história do regime.

TESTEMUNHO

De Paulo Varela Gomes no Cristóvão-de-Moura sobre sua mãe Maria Eugénia:

"Numa qualquer manifestação do final dos anos de 1960, a minha mãe acompanhou-nos vestida (como sempre) com um comprido casaco de gola alta na qual recolhia os cabelos. Descia ela a rua com as minhas irmãs abraçadas, ainda pequenas, uma de cada lado. Quando a polícia de choque carregou, ela susteve o ímpeto de fuga das minhas irmãs que queriam seguir a pequena multidão em correria desenfreada rua abaixo. Disse-lhes: "Meninas, não se foge à polícia...". As minhas irmãs lembram-se que se curvava quando os cassetetes dos polícias a atingiam na cabeça, mas que nunca apressou o passo. Chegou a casa, tirou o casacão comprido. Tinha a cabeça em sangue, o cabelo e as costas empapados. Levou três pontos. "

9.8.03

ORIGENS DE UMA CONTRA CULTURA – O CICLO “POPOLOGIA” REALIZAÇÃO “AUTÓNOMA” DE COLABORADORES DA SECÇÃO CULTURAL DA AAFDL (1968)

O ciclo de sessões "Popologia - mitologias do mundo contemporâneo", realizado em Março de 1968, foi o primeiro a abrir as actividades culturais associativas às formas, meios e realizações da contra cultura dos anos 60 e à nova estética da cultura pop. O mundo cultural que trazia aos estudantes associativos e a um público juvenil politizado, era predominantemente anglo-saxónico e associado a novas expressões da cultura juvenil como a música pop, a banda desenhada, e o cinema de vangarda. Este ciclo ocorreu antes do Maio de 1968, e revela o papel da recusa das referências culturais neo-realistas, dominantes na oposição onde o PCP era hegemónico no plano cultural, na formação da geração esquerdista dos anos setenta. A radicalização estética precede a radicalização política, mas ambas fazem parte de um mesmo movimento cultural.

Realizada por um grupo de colaboradores da Secção Cultural da AAFDL tratava-se de uma realização "paralela", "autónoma" (termos em que é descrita na AAFDL, Relatório e Contas da Gerência de 1967-1968, Novembro de 1968) e teve que ser feita fora das instalações associativas na SNBA. Entre os seus animadores contava-se Manuel Castilho, e Alexandre de Oliveira, já falecido, e um grupo de colaboradores associativos que, desde 1967, se opunham à orientação dominante na Secção Cultural.

A realização "oficial" da Secção Cultural era um ciclo de debates intitulado "Coordenadas da Arte nos nossos dias", coincidentes para o mesmo mês de Março, com os temas e pessoas habituais do neo-realismo dominante: Mário Sacramento, Lima de Freitas e Machado da Luz discutiam "Arte interferente e arte intemporal", P. Viana de Almeida, Alberto Ferreira e J. Augusto França, "arte divorciada do público e arte para o povo", Fiama Hasse, Augusto Costa Dias e Ernesto de Sousa, "arte popular", Urbano Tavares Rodrigues e Óscar Lopes "o conflito entre o realismo crítico e a arte decadente.", etc. (Coordenadas da Arte nos Nossos Dias, Ciclo de Conferências promovido pela Secção Cultural da AAFDL, 1968). Era difícil ser mais ortodoxamente neo-realista, ou seja, estar mais dependente da visão estética do PCP.

O ciclo "Popologia" introduzia temas até então ignorados na cultura associativa: movimentos juvenis, "beatnicks", "provos" e "hippies", música pop (audição de discos dos Beatles, Bob Dylan, Simon and Garfunkel, Kinks, Manfred Mann, Cat Stevens, etc.) banda desenhada, Andy Warhool, cinema "pop" (que incluia os filmes dos Beatles, A Hards Day Night, Modesty Blase de Losey, Superargo contra Diabolick de Nick Norton, e um filme de Tarzan com Weissmuller).

As pessoas que falavam também não eram as habituais: havia homens da rádio (João Manuel Alexandre do "Em Órbita"), do Jazz (José Duarte, Manuel Jorge Veloso), da música de vanguarda (Jorge Peixinho), cineastas e críticos de cinema como Jorge Silva Melo, António Pedro Vasconcelos, Luis Galvão Teles.
Alguns neo-realistas convidados aceitaram para atacar a realização, como Pedro Nunes de Almeida que no sumário da sua intervenção dizia que: "A intervenção pop não convém à arquitectura - A arquitectura não é passível de um consumo obsolescente que caracteriza o pop".

O ciclo teve um grande sucesso de participação.

(Popologia. Mitologias do Mundo Contemporâneo, Ciclo de Sessões organizado pela AAFDL na Sociedade Nacional de Belas-Artes, 1968).

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Bibliografia:

AAFDL , Relatório e Contas ........
Popologia......
Coordenadas...
Quinzena Pop, Cinema Europa, 1968.
Popologia nº 9

8.8.03

DENÚNCIA DO AVANTE! DE JOÃO PULIDO VALENTE E MANUEL CLARO EM 1964









O Avante! , 349, de Dezembro de 1964, denúncia a presença em Portugal de João Pulido Valente e Manuel Claro, ex-militantes do PCP , agora pertencendo à FAP e ao CMLP. Esta denúncia era grave em situação de clandestinidade, dado que a PIDE ficava a saber que ambos estavam no interior de Portugal e não no estrangeiro. João Pulido Valente é preso pouco depois.
O PCP veio mais tarde de forma indirecta a admitir que foi um "erro" a publicação desta nota. O facto de de isto ter acontecido revela o grau de conflitualidade que a partir de 1964 marcou as relações do PCP com os novos grupos de extrema-esquerda e vice-versa

6.8.03

UMA HISTÓRIA DE JOÃO PULIDO VALENTE DE 1958

(Parte adaptada do texto inédito do volume III da biografia de Cunhal, sem as notas.)

João Pulido Valente, então militante do PCP, teve um papel muito importante nas tentativas de levar Cunha Leal a candidatar-se à Presidência da República em 1958. Por ironia da história, Cunha Leal, um dos poucos anticomunistas consistentes da oposição portuguesa, era então o candidato desejado pelo PCP. O partido fazia, através de uma organização de frente, a Comissão Cívica Eleitoral (CCE) , tudo para o convencer a candidatar-se. Cunha Leal avançava e recuava, dizia que sim, não e talvez, gerando uma processo muito tumultuoso. João Pulido Valente, que era um dos médicos de Cunha Leal, funcionava como um dos intermediários entre o PCP (via “cívica”) com Cunha Leal. Embora Cunha Leal estivesse a atravessar um período de doença e tivesse feito uma intervenção cirúrgica, tornava-se obvio que usava a doença como pretexto.

No dia 15 de Abril de 1958 , Cunha Leal anuncia o “não” definitivo , deixando os comunistas sem candidato face à candidatura “independente” de Delgado que se avolumava. Os elementos da CCE reunidos na Seara Nova são informados pelo filho de Cunha Leal que este estava “impossibilitado” por doença de aceitar a candidatura. João Pulido Valente, ficou furioso e saiu da reunião e foi a casa de Cunha Leal de surpresa. Chegado lá viu que ele estava de boa saúde e que a doença servia de pretexto para a recusa . Volta à Seara Nova e , ainda mais furioso, diz que é tudo mentira e Cunha Leal estava a engana-los . Três dias depois , Cunha Leal mandou comunicar à República que o seu estado de saúde se agravara e que o médico proibira-o de receber visitas ao mesmo tempo que o aconselhara a desistência da candidatura senão “podia por em risco a sua vida

Jogando uma última cartada, a CCE insiste que "não tendo conhecimento oficial da desistência” (…) vai diligenciar obter daquele ilustre homem público a sua opinião definitiva sobre este ponto fundamental". Cunha Leal ficou furioso, porque percebeu que a CCE punha publicamente em dúvida a veracidade dos seus motivos e escreveu à República

"Acho a nota de um atrevimento extraordinário, porque tendo o meu médico afirmado que o meu estado de saúde não me permitia empenhar-me na luta eleitoral e, em face disso, tendo o meu filho transmitido a minha disposição de não me candidatar, haja pessoas que tenham a ousadia de, apesar da minha doença, pretenderem a minha afirmação pessoal, o que significa pôr em dúvida as afirmações de um médico e de meu filho, e é um atrevimento de que não julgava que houvesse pessoas em Portugal capazes de o cometer."

Acabou aqui a candidatura de Cunha Leal que veio a apoiar Delgado. O PCP vai apoiar Arlindo Vicente, o "candidato de recurso", para depois , no último minuto, apoiar Delgado.

5.8.03

BIOGRAFIAS - MORTE DE JOÃO PULIDO VALENTE

Notícia da Lusa (enviada por J.M.Lopes Cordeiro)

Faleceu João Pulido Valente, militante anti-fascista e fundador da UDP

O médico João Pulido Valente, militante anti-fascista e fundador da União Democrática Popular (UDP), faleceu hoje, com 77 anos, vítima de doença prolongada.

João Pulido Valente foi militante do Partido Comunista (PCP) até 1964, quando por divergências políticas saiu, criando com outros dissidentes a Frente de Acção Popular (FAP) e o Comité Marxista-Leninista Português.

Perseguido pelo regime, fugiu para a Argélia, mas logo regressou a Portugal clandestinamente, sendo detido pela PIDE (Polícia Internacional e Defesa do Estado) e condenado por um tribunal a 12 anos de cadeia. No 25 de Abril de 1974 foi libertado.

João Pulido Valente exerceu funções desde 1975 no Hospital Curry Cabral, e actualmente estava reformado.

O médico encontra-se em câmara ardente no Centro de Santa Joana Princesa, em Lisboa, e será terça-feira cremado pelas 16:00 no Cemitério do Alto do São João (dado por confirmar).


Lusa/Fim

Sobre João Pulido Valente vejam-se as notícias necrológicas do Público e do Diário de Notícias .

Em breve se acrescentarão novos elementos biográficos para a compreeensão do papel de João Pulido Valente no movimento comunista português quer no PCP , quer no CMLP / FAP e noutras organizações.

4.8.03

COMUNISMO À LUZ DA PSICANÁLISE

Como complemento para os estudos sobre o comunismo, sugiro a leitura de um muitíssimo interessante artigo de Ronald Fairbairn, membro da Escola Inglesa de Psicanálise (uma das mais importantes depois do aniquilamento da Escola de Viena em 1938).

A par de Melanie Klein, Donald Winnicott e Wilfred Bion, Fairbairn foi um dos mais importantes pós-freudianos. A ele se deve, em parte, a passagem de uma abordagem estrutural-pulsional para uma estrutural-relacional na (tentativa de) compreensão do funcionamento mental.

No livro Estudos Psicanalíticos da Personalidade (em Portugal, uma edição da Editorial Vega, sem ano mencionado; penso que esgotadíssima) poder-se-á encontrar um artigo de 1935 intitulado 'O significado sociológico do comunismo considerado à luz da psicanálise'; originalmente lido numa reunião do Ramo Escocês da Sociedade Britânica de Psicanálise (1934) e publicado no The British Journal of Medical Psychology.

Existe ainda uma conferência semelhante intitulada 'Comunismo como um fenómeno antropológico', publicada no Edinburg Medical Journal em 1937.

Não deve ser complicado adquirir o livro numa edição inglesa. Encontra-se neste sítio.

(Nota enviada por Paulo Azevedo)

2.8.03

BIOGRAFIAS - JACINTO RAMOS MARTINS

(Alpiarça, 30/4/1917- Lisboa, 17/72003)

Empregado de escritório, contabilista e escritor, membro do PCP desde 1935. Foi preso várias vezes , a última das quais em 20 de Janeiro de 1959, sendo libertado apenas em 21 de Julho de 1964. Dessa prisão deixou um depoimento escrito sobre as condições prisionais. O Avante! descreve-o como “sempre um lutador antifascista consequente, tendo passado mais de cinco anos nos calabouços da PIDE, frente a qual nunca se vergou” .
Depois do 25 de Abril esteve ligado ao Sector de Serviços e Hotelaria da ORL


Fontes :

Avante! , 31/7/2003

Entrevista ao Diário de Lisboa, 27/5/1974

Repressão / ... [ilegível] de Janeiro, foi preso no emprego, o democrata Jacinto Martins, 4 Fevereiro 1959

1.8.03

José Neves - Recensão a Paula Godinho, Memórias da Resistência Rural no Sul – Couço (1958-1962)

Paula Godinho, Memórias da Resistência Rural no Sul – Couço (1958-1962), Oeiras, Celta. 2001

Beldroegas, saramagos e cagarrinhas eram as três vias para um caldo em tempos de guerra à fome. E se, hoje e aqui, as ervas nos abrem o apetite e nos imaginam um rural “exótico”, ontem e lá – no Couço – eram apenas o que havia para a colecta de combate ao quotidiano das fomes. Se hoje e aqui são cultura porque são frutos de “contemplação”, ontem e no Couço são cultura porque objectos de “experiência”. Os próprios anos 40, se aqui e agora são o tempo da II Guerra Mundial, lá e então são o tempo das Grandes Fomes, do ir buscar pão onde ele houver.
A dissertação de doutoramento de Paula Godinho, publicada pela Celta numa letra injustificável para qualquer economia oftalmológica do leitor, tem como objecto de estudo a resistência rural no Couço. As memórias dos habitantes do Couço desenvolvidas a partir da recordação de um tempo de aceleração histórica (1958-62), recolhidas em 14 meses de trabalho de campo, são a fonte principal da tese. A história oral constitui-se assim como a arma dos fracos, permitindo ao cientista social dispor de visões do passado que a história escrita tende a subalternizar.

A metodologia de Godinho permite-lhe fragilizar algumas dicotomias clássicas (antropologia vs. história; história oral vs. história escrita). O trabalho de campo possibilita, pela participação no dia-a-dia, a penetração numa cultura que a resistência e a clandestinidade construíram como “reservada”, favorecendo a imaginação das redes sociais de outrora – das redes de vizinhança, das redes de trabalho, das redes familiares, das redes do lazer e das redes comerciais. O Couço, mitificado como a “aldeia vermelha”, é visto a partir de dentro, concluindo a autora que a militância partidária é política, mas é também social e cultural. A rede do “Partido” (do Partido Comunista Português) vive entretecida com a rede familiar (os casais que juntos passaram à clandestinidade), a rede de vizinhança (as visitas num regresso da prisão) e a rede do trabalho (as lutas pelo direito à fumaça e pelos salários). Ou seja, os comunistas coucenses não habitam e não viveram fora de um tempo e de um espaço. Trata-se aqui, pois, de rejeitar a visão das ideologias como estranhas às práticas sociais, com tudo o que isso implica ao nível da análise dos movimentos sociais: a dicotomia movimento organizado / movimento espontâneo torna-se redutora (a violência no protesto nos anos 40 é espontânea irracionalidade ou organizada estratégia?) e a dicotomia reacção/revolução equívoca (no sentido em que por reacção se pressuponha imediatismo e por revolução se pressuponha conspiração). A autora sugere linhas de análise das formas de protesto que alargam o âmbito usual do conceito de resistência. Esta não é apenas a heróica luta na prisão, o clássico abaixo-assinado ou a épica greve; é também o boicote económico à introdução de maquinaria nos anos 60. O ritmo lento do trabalho não é a “preguiça” anedotizada para além do Tejo, mas a inércia activa de quem não trabalha mais e melhor porque se sente explorado. A procura de um registo escondido nas práticas sociais, um registo escondido de resistência, de valorização de certas práticas, tempos e disciplinas próprias e, portanto, a percepção de uma cultura de resistência que é não só uma resistência política mas acima de tudo uma resistência cultural, norteia toda a investigação.

Esta complexificação das dicotomias referidas inserir-se-á, em certa medida, numa renovação no estudo dos movimentos sociais que se inicia a partir da década de 60, com a emergência de revoltas não enquadradas, tanto nas instituições existentes no campo da produção e no da reprodução, no campo do sistema e no campo da alternativa, como nos próprios quadros teóricos das ciências sociais. Procurou-se a partir de então desviar o estudo das lutas de classes de uma direcção única, a direcção estatocêntrica.

Os movimentos sociais rurais, naquele processo de renovação dos quadros de estudo dos movimentos sociais, foram, se assim se poderá dizer, dos mais “beneficiados”. A visão marxiana dos camponeses como batatas no saco foi sendo desafiada ao mesmo tempo que se começava a afirmar o estudo de outros tempos sociais para lá do tempo histórico. No caso do Couço, Paula Godinho não hesita em rejeitar a utilidade do conceito de comunidade no sentido corporativo do termo (uma aldeia “pacífica” de proprietários e trabalhadores). Ela afirma que esse conceito é claramente destruído por uma lógica de nós vs. eles. A linha que traça o versus, por sua vez, assenta na questão da terra – quem a tem e quem a não tem – e na questão do trabalho (quem a não tem e portanto trabalha). Mas, refere Paula Godinho, no Couço não se deve propriamente falar de camponeses, mas sim de assalariados rurais cujo tempo não é tão marcado pela rotina anual da colheita (o facto de não decidirem sobre o processo de produção e a precariedade do emprego a tal conduz) e cujos lugares sócio-económicos não são tão diversos quanto os de um mundo rural de camponeses. Tais diferenças implicar-se-ão na construção de uma cultura de classe de forma decisiva. Assim, se é certo que há uma consciência da repartição injusta da terra como o “mal fundador”, a reivindicação da sua posse não é central. A reivindicação central acaba por ser quase sempre a de mais salário e/ou de regulação de direitos de trabalho, reivindicação que afirma uma ética do trabalho muito característica do mundo operário e que, de certa forma, secundariza a especificidade da relação com a terra (vai também neste sentido a evocação pelo PCP dos trabalhadores dos campos como operários agrícolas).

Mas seria errado limitar a linha entre o nós e o eles a uma questão de lugar económico-social. Godinho mostra-nos a heterogeneidade dos lugares sociais no Couço: vendedores ambulantes, artífices e comerciantes persistem e surgem. Por outro lado, há distância entre o proprietário odiado e aquele outro considerado democrata devido a posições mais afastadas do regime e/ou à prática de melhores salários. Assim, é uma cultura de resistência que se edifica sobre aqueles lugares económicos, mas uma cultura que se edifica já com uma autonomia assinalável demarcando os campos.
O mapa da sociabilidade da aldeia, mapa esse que nos permite perceber esse travar do conflito, é traçado. A Igreja, a escola e a Casa do Povo (lugares emblemáticos da hegemonia estatal); o cinema, os bailes de domingo onde o trabalho coloniza o lazer («Nos bailes do Couço, quando as raparigas envergavam as suas melhores roupas, devia ser sempre por elas fornecido um lenço ao dançador que as acompanhasse, para ser interposto nas suas mãos, impedindo que o suor que delas brotasse manchasse com a tinta do sobreiro as blusas claras dos dias de festa», pp.105), os piqueniques e as pescarias onde a política coloniza o lazer, os postos do comércio (a barbaria, o mercado, a taberna, etc.). A autora mostra-nos a promiscuidade entre os campos do lazer, do trabalho e da política e identifica uma cultura de resistência que contamina e se contamina em todos eles.

Na parte final do livro analisam-se ainda os universos da vida clandestina, da prisão e da tortura, onde se conclui da criação de uma identidade local em contexto de prisão (os pinhões torrados do Couço distribuídos pelos presos, as inscrições da palavra Couço nos pratos da prisão) e onde se conclui da prisão como cruzamento de lugares sociais (onde uma trabalhadora do Couço encontra uma estudante de Lisboa).

Notas finais: algumas linhas de análise ficaram por explorar. No que se refere ao mapeamento das sociabilidades do Couço seria interessante perceber algumas dinâmicas que, não pondo em causa o antagonismo nós/eles, serviriam para aferir de consensos que por aí perpassem. Isto é, a quase imunidade entre os campos em conflito sugerida pela autora mereceria ser mais testada, aferindo-se da “convivência” entre, por um lado, possíveis consensos que perpassem os universos culturais, e, por outro lado, a evidência do conflito e de um antagonismo central. Concretizando: a autora refere que no cinema do Couço existia um balcão e uma plateia; de um lado ficavam os trabalhadores e do outro os proprietários (isto é, os campos não se “misturam”); ora, seria também interessante perceber quais os filmes e espectáculos que ambos – nós e eles – assistiram nesse mesmo cinema. De igual modo, parece sugerir-se que a construção do género no seio do nós resultava de um conflito entre uma ideologia igualitária (do partido) e uma cultura “tradicional” discriminatória; mas não se chega a questionar até que ponto, em parte, o partido não se constitui como um agente ambíguo, ou seja, um agente quer da exclamação da igualdade, quer da “organização” da discriminação (pp.6 e 233). Talvez uma consideração maior destas perspectivas favorecesse a compreensão, por exemplo, dos motivos porque nós e eles igualmente comemoraram – ainda que diferentemente – o 1º de Dezembro.

José Neves / Bolseiro da Fundação para a Ciência e a Tecnologia / Centro de Estudos de Antropologia Social

NOVO ESTUDO E DOCUMENTOS SOBRE AS OPERAÇÕES CLANDESTINAS CHECAS E CUBANAS NOS ANOS SESSENTA

No Cold War International History Project e-Dossier Series foi publicado um novo estudo intitulado Operation Manuel: Czechoslovakia and Cuba de autoria de Daniela Spenser, contendo documentos muito interessantes para o conhecimento das operações clandestinas checas, soviéticas e cubanas em apoio a movimentos revolucionários da América Latina nos anos sessenta. O interesse do estudo é documentar mecanismos de apoio “subversivos” que podem iluminar os métodos e os recursos usados para apoiar movimentos comunistas clandestinos (como o português e o espanhol) e movimentos de libertação africanos.