ESTUDOS SOBRE O COMUNISMO

Notas , perguntas , bibliografias , estudos sobre a historia do comunismo em Portugal e no mundo
E-mail : jppereir@mail.telepac.pt

31.5.03

POESIA DA RESISTÊNCIA

Jaime Cortesão - Romance do Homem da Boca Fechada


- Quem é esse homem sombrio
Duro rosto, claro olhar,
Que cerra os dentes e a boca
Como quem não quer falar?
- Esse é o Jaime Rebelo,
Pescador, homem do mar,
Se quisesse abrir a boca,
Tinha muito que contar.

Ora ouvireis, camaradas,
Uma história de pasmar.

Passava já de ano e dia
E outro vinha de passar,
E o Rebelo não cansava
De dar guerra ao Salazar.
De dia tinha o mar alto,
De noite, luta bravia,
Pois só ama a Liberdade,
Quem dá guerra à tirania.
Passava já de ano e dia...
Mas um dia, por traição,
Caiu nas mãos dos esbirros
E foi levado à prisão.

Algemas de aço nos pulsos,
Vá de insultos ao entrar,
Palavra puxa palavra,
Começaram de falar
- Quanto sabes, seja a bem,
Seja a mal, hás de contá-lo,
- Não sou traidor, nem perjuro;
Sou homem de fé: não falo!
- Fala: ou terás o degredo,
Ou morte a fio de espada.
- Mais vale morrer com honra,
Do que vida deshonrada!

- A ver se falas ou não,
Quando posto na tortura.
- Que importam duros tormentos,
Quando a vontade é mais dura?!

Geme o peso atado ao potro
Já tinha o corpo a sangrar,
Já tinha os membros torcidos
E os tormentos a apertar,
Então o Jaime Rebelo,
Louco de dor, a arquejar,
Juntou as últimas forças
Para não ter que falar.
- Antes que fale emudeça! -
Pôs-se a gritar com voz rouca,
E, cerce, duma dentada,
Cortou a língua na boca.

A turba vil dos esbirros
Ficou na frente, assombrada,
Já da boca não saia
Mais que espuma ensanguentada!

Salazar, cuidas que o Povo
Te suporta, quando cala?
Ninguém te condena mais
Que aquela boca sem fala!

Fantasma da sua dor,
Ainda hoje custa a vê-lo;
A angústia daquelas horas
Não deixa o Jaime Rebelo.
Pescador que se fez homem
Ao vento livre do Mar,
Traz sempre aquela visão
Na sombra dura do olhar,
Sempre de boca apertada,
Como quem não quer falar.


Este poema de Jaime Cortesão circulou clandestinamente nos anos trinta e foi publicado no Avante em 1937 . A publicação de um poema de um republicano sobre um anarquista no jornal comunista inseria-se nos esforços de Francisco Paula de Oliveira /"Pavel" para reforçar uma política de frente popular em Portugal . Sobre Jaime Rebelo veja-se a sua necrologia em Voz Anarquista 1 , 22/1/1975 e César Oliveira , "Jaime Rebelo : Um Homem Para Além do Tempo " , História , 6 , Março 1995

28.5.03

MOVIMENTO COMUNISTA INTERNACIONAL - WALTER SISULU

Duas biografias de Walter Sisulu , um dirigente nacionalista sul-africano , próximo do PC Sul Africano recentemente falecido . Uma "oficial" , de responsabilidade do ANC , e outra do African History .

27.5.03

CINQUENTENÁRIO DA MORTE DE STALINE

No ano em que se comemora o cinquentenário da morte de Staline é interessante lembrar alguns aspectos do que foi o estalinismo no PCP . O artigo recente de João Madeira , referido na bibliografia , acrescenta pouco ao que já se sabe do estalinismo no PCP , de que o seu livro Os Engenheiros de Almas . O Partido Comunista e os Intelectuais (dos Anos Trinta a Inicios de Sessenta) é o estudo mais completo . O poema que publicamos junto , de autoria de um "jovem português" não identificado ( "José Didopro" ) , é um exemplo típico do culto de personalidade a Staline e circulou entre funcionários e militantes do PCP entre 1954 e 1955 . Na versão que conhecemos dactilografada uma palavra é ilegível .


Adeus , camarada Staline !

Ó Sol que nos abandonas , após tantos dias nos iluminares !
Ó estrela do Kremlin que empalideces , após tanto tempo rubra !
Adeus , camarada Staline !
Milhões e milhões de homens gemeram de dor ao receber ....... [ilegível ] .
Milhões e milhões se cobriram de luto .
Adeus , camarada Staline !
O funeral passa
A vermelha praça negro se torna .
Todas as praças do mundo se tornam negras .
Adeus , camarada Staline !
Cortejo simples , grandioso , tal como o homem.
Homem ! Mais que Deus !
Vejo-te , como tantos
E como tantos choro .
As lágrimas correm-me ,
Que são gotas no largo oceano jorrado dos olhos dos povos .
Pagam-te o amor com amor
Ó mais odiado e amado dos mortais !
Adeus , camarada Staline !
Nunca serás esquecido !
O caminho que nos indicaste será seguido
Tu que foste sempre um exemplo de modéstia , da ciência !
Só tu confessaste erros ,
Mas só de ti aprendemos
Adeus , camarada Staline !
Na tua doutrina oremos
Por ela as mãos daremos
E o mundo revolveremos
Para que haja Paz !


9 de Março de 1953

José Didopro

26.5.03

ESTADO DA INVESTIGAÇÃO - PEDIDO DE AUXÍLIO

No ãmbito de uma pesquisa em curso sobre a história da extrema-esquerda em Portugal, cobrindo o período de 1964 a 1974, solicito e agradeço todo o auxílio de quem me puder proporcionar elementos sobre um agrupamento denominado “Organização dos Comunistas Marxistas-Leninistas de Portugal” (OCML de P), que se manteve em actividade (pelo menos) de 1972 a 1974, publicando um jornal intitulado Unidade e Luta , do qual saíram cinco números.

José Manuel Lopes Cordeiro
Instituto de Ciências Sociais
Universidade do Minho
Campus de Gualtar
4710-057 Braga
(contacto: cordeiro@ics.uminho.pt)

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NOTAS BIOGRÁFICAS

Necrologias no Diário de Noticias e no Público de Ramon de la Feria , médico , mação , membro do MUD e activista de várias campanhas da oposição .

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NOTAS BIOGRÁFICAS DE FUNDADORES DO PCP

João Ferreira Cabecinha

Empregado de escritório, activista sindical da sua classe, onde teve papel predominante na greve de março de 1918. Tratado como o “velho”, o “pai” da classe nos jornais associativos, Cabecinha era um dos dirigentes sindicais mais prestigiados do PCP, de cujos primeiros corpos directivos fez parte. Participou no I Congresso como delegado da Comuna José Fontana, tendo apoiado Rates nos conflitos de 1923. EM 1925, foi o candidato do PCP nas listas da Esquerda Democrática do Círculo Ocidental de Lisboa, sendo de todos os deputados da lista o menos votado.
(JPP)

25.5.03

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ORIGENS DO PCP NO PORTO

José Manuel Lopes Cordeiro , "As Origens do PCP no Porto" , Público , 11 de Março de 2001


Como foi amplamente noticiado, comemorou-se na semana passada o octogésimo aniversário da fundação do Partido Comunista Português, ocorrida em Lisboa, a 6 de Março de 1921. O maior ou menor desenvolvimento que essas abordagens históricas registaram não contemplou, tanto quanto tivemos oportunidade de constatar, o processo que conduziu à formação do PCP no Porto, razão pela
qual a iremos abordar nesta "Memória da Cidade".
Uma das raras fontes disponíveis para se conhecer um pouco da história do PCP no Porto deve-se a José da Silva, operário sapateiro, que foi um dos protagonistas desse processo. Esse relato autobiográfico deu origem a um livro, em dois volumes, publicado no início dos anos 70 por uma das mais curiosas editoras portuguesas, a Livraria Júlio Brandão, de V. N. de Famalicão. As origens do PCP no Porto remontam a meados de 1920 quando, numa agitada reunião efectuada no Centro Comunista Libertário - com sede na Rua de Entreparedes, nº 33 -, vários dos presentes abandonaram a sala, no seguimento de uma acalorada discussão em que os dois grupos em que, entretanto, os presentes se tinham dividido se injuriavam mutuamente. À frente do grupo que abandonara a reunião encontrava-se o operário Manuel Ferreira Torres, manufactor de calçado, um ex-simpatizante anarquista que se tinha entusiasmado com a revolução russa de 1917, e que, no Porto, era o mais entusiasta difusor do jornal "Bandeira Vermelha", publicado em Lisboa pela Federação Maximalista Portuguesa.
No seguimento dessa reunião, constituiu-se nesse ano de 1920, e em torno de Manuel Ferreira Torres, um núcleo de operários que formou o primeiro agrupamento de carácter marxista, o qual adoptou a denominação de Centro Comunista do Porto. Dois anos mais tarde, em Dezembro de 1922, alguns sindicalistas do Porto, que, no III Congresso Operário Nacional, realizado em Outubro desse ano na Covilhã, se tinham manifestado a favor da Internacional Sindical Vermelha (ISV), foram contactados por Abílio A. Lima, do sindicato dos arsenalistas de marinha, de Lisboa, informando-os de que os simpatizantes da ISV da capital se tinham associado num agrupamento denominado "Núcleo Sindicalista Revolucionário" (NSR), cujos objectivos eram os de levar os seus membros a constituírem "fracções sindicais" de partidários da ISV dentro dos sindicatos onde dominassem os libertários.
Abílio A. Lima trazia também como missão encontrar no Porto, no seio dos "sindicalistas revolucionários", alguém que se dispusesse a desempenhar as funções de correspondente de um novo jornal, denominado "A Internacional", que se iria publicar em Lisboa -
cujo primeiro número sairá a 3 de Novembro de 1923 -, com o objectivo de divulgar os princípios sindicalistas da ISV. A tarefa irá recair sobre José da Silva, que, em simultâneo, passou a desempenhar também o cargo de secretário-geral do NSR, entretanto constituído, com sede na Rua do Bonjardim.

A PRIMEIRA ORGANIZAÇÃO PARTIDÁRIA

Entretanto, em meados de 1921, no seguimento da dissolução da Federação Maximalista em Dezembro de 1920 e da posterior fundação do PCP, Manuel Ferreira Torres iniciará um processo que desembocará na criação da primeira organização partidária comunista na Cidade Invicta, a qual substituirá o Centro Comunista do Porto. Entre os elementos que a constituíam, para além de Manuel Ferreira Torres e José da Silva, contavam-se Salvaterra Júnior, cinzelador de profissão e "apreciado poeta" (de acordo com José
da Silva), que, no I Congresso do PCP, em Novembro de 1923, será eleito para o Comité Central, Henrique Fernandes, alfaiate, Aurélio da Cunha Guimarães, comerciante, Domingos Ferreira Fontes, pintor, Aníbal Barbosa Cardoso, empregado comercial, e Apolino Aragão, entre outros.
Este primeiro núcleo de comunistas portuenses irá revelar-se, contudo, incapaz de manter entre si a necessária unidade e coesão, pelo que, ainda de acordo com José da Silva, a breve prazo surgem insanáveis divergências, motivadas por diferentes interpretações sobre a orientação a seguir. Estas diziam respeito à aplicação das resoluções adoptadas no IV Congresso da Internacional Comunista (IC), onde uma delegação do PCP tinha participado, e do qual tinha regressado com fortes intuitos "depuradores". Aliás, uma situação idêntica registou-se em Lisboa, pelo que foi necessário convocar uma conferência de militantes, realizada em 4 de Março de 1923, da qual saiu um novo Comité Central, que, de depuração em depuração, acabou por suspender a actividade do PCP até à intervenção da IC. Entretanto, os militantes que tinham sido "depurados", dirigidos por José Carlos Rates, darão continuidade ao trabalho, reconstituindo o partido.
Em Agosto de 1923, perante esta situação, Jules Humbert-Droz - o delegado que a IC tinha enviado a Portugal para resolver os problemas da sua Secção Portuguesa - decide apoiar o grupo de Rates e convocar um congresso constitutivo do PCP para Novembro desse ano. A influência de Droz irá ser decisiva, nomeadamente no apoio a Rates, o que, mais tarde, mereceu a Bento Gonçalves a apreciação de que formavam um "duo irresponsável e grotesco", e que, "com uma acertada vigilância de classe, não era difícil fixá-los como oportunistas sem vergonha". Nesse congresso, em que os militantes do Porto foram representados por Salvaterra Júnior e Aurélio da Cunha Guimarães, são aplicadas várias sanções - desde a suspensão até à irradiação -, sendo particularmente afectada a Comuna do Porto, dado que a Américo Antelo, António Sales, Apolino Aragão, Domingos Ferreira Fontes e Aníbal Barbosa Cardoso irá ser aplicada a pena de suspensão, e a Henrique Fernandes a irradiação do partido.
Após o I Congresso, a organização do PCP no Porto ficou sob a responsabilidade de Manuel Ferreira Torres, embora extremamente debilitada. Como refere José da Silva, sua simpatia e prestígio "não eram o bastante para fazer andar para a frente a organização comunista do Porto", salientando, entre outros aspectos, que "nunca se tentou dar ao partido uma sede", sendo "quase sempre o local escolhido para troca de impressões o café 'Águia d'Ouro', e era mesmo aí que, de vez em quando, se redigia uma notícia para os jornais destinada aos seus filiados". Valerá ao PCP o prestígio e a influência entretanto adquiridos por José da Silva - que, em Dezembro de 1923, tinha sido eleito secretário-geral do Sindicato dos Manufactores de Calçado, que, assim, foi conquistado para a orientação do sindicalismo revolucionário. Em meados de 1924, numa reunião dos filiados no NSR, José da Silva propõe a sua integração nas fileiras do PCP, que é aceite, ao mesmo tempo que aquele era dissolvido. "E foi assim que o PCP, de uma assentada, foi reforçado com cerca de setenta novos membros, 95 por cento dos quais eram operários", ressalta José da Silva.

PAREDES-MEIAS COM O CAPITAL

A primeira consequência da entrada dos sindicalistas revolucionários para o PCP foi a debandada de Manuel Ferreira Torres e do seu grupo de amigos, que José da Silva explica pelo facto de, verdadeiramente, nunca terem sido comunistas, e estarem "ainda muito presos à cepa de que eram oriundos - o anarquismo". À frente do PCP no Porto, José da Silva irá imprimir-lhe uma nova orientação, mais actuante, tanto no domínio sindical como no político. A direcção era agora composta por António de Carvalho, operário alfaiate, Anastácio Gonçalves Ramos, metalúrgico, António Nunes, chefe de armazém, e José Moutinho, empregado de escritório.
No entanto, dispunha ainda de um número reduzido de membros que pagavam uma quota mensal de um escudo - o que impossibilitava a resolução de um velho problema, o da inexistência de uma sede, dado não haver receitas suficientes para assegurar o respectivo aluguer. Só existia uma solução, o de aumentar o número de filiados, tarefa que foi resolutamente levada a efeito, e, em menos de dois meses, o PCP portuense contava com 400 militantes, possibilitando o aluguer de uma sala para a primeira sede do partido, nas traseiras do segundo andar do nº 69 da Avenida dos Aliados, num prédio cuja frontaria era ocupada pelo Banco Espírito Santo. A reorganização do PCP portuense contou ainda com um outro momento alto, na Primavera de 1925, com a criação do seu primeiro órgão regional, o mensário "A Bandeira Vermelha".
Não obstante ter registado inúmeras dificuldades nos anos de 1925 e de 1926, a organização portuense do PCP conheceu um razoável desenvolvimento. Em breve, a sede da Avenida dos Aliados mostrou-se insuficiente para as necessidades partidárias, pelo que foi necessário alugar novas instalações, um segundo andar do nº 196 da Rua de Trás, onde se situava a entrada, mas cuja frente dava para a Torre dos Clérigos.
O 2º Congresso do PCP, realizado em 29 e 30 de Maio de 1926 - nos dias seguintes à revolta militar que abrirá caminho ao regime do Estado Novo -, contou com a participação de sete delegados portuenses - José da Silva, António de Carvalho, Anastácio Ramos, Manuel João, Moreira Gomes, Saint Martin e José Moutinho - e, entre várias resoluções, louvou o trabalho político e sindical realizado pelo Comité Regional do Norte, tendo José da Silva presidido à Segunda Sessão dos trabalhos. No entanto, o PCP saiu desse congresso sem uma clara orientação para fazer face à situação resultante do golpe militar do 28 de Maio, o que conduziu à sua participação em várias tentativas de "putshs" contra a ditadura militar que se tinha instalado no país, organizados pelos diversos sectores republicanos.
É o caso do frustrado golpe do 3 de Fevereiro de 1927, no Porto, que contou com a contribuição de 200 militantes do PCP, no seguimento do qual a sua sede foi encerrada, parte dos seus membros foi presa, tendo os dirigentes locais sido obrigados a dispersarem-se pela província ou forçados a emigrar. A partir de então, a actividade do PCP no Porto e no país praticamente desaparece. Será necessário aguardar por 1929, para Bento Gonçalves encetar uma profunda reorganização. Mas essa é já uma outra história.

(Reproduzido com autorização do autor )

ADVOGADOS COMUNISTAS ANTES DO 25 DE ABRIL

Avelino Pereira colocou-me a seguinte questão :

Li a sua página sobre os estudos sobre o comunismo, e gostaria de aproveitar a disponibilidade para perguntas para suscitar uma dúvida que me assolou aquando da leitura do 2º volume da sua biografia de Alvaro Cunhal. Refere-se, no livro, a intervenção do Dr. Palma Carlos como advogado dos comunistas que eram acusados pelo regime. Como advogado dos arguidos, com intervenção no processo, presumo. Mas alude-se ainda que o Dr. Palma Carlos comunicava ao Dr. Alvaro Cunhal o que do autos ressaltava sobre o comportamento dos arguidos durante interrogatório. Parece por isso, que por um lado, o Dr. Palma Carlos assumia a defesa de arguidos, e que, ao mesmo tempo, denunciava ao Partido o comportamento desconforme com as suas normas. Ora, isto seria um comportamento incompreensível da parte de um advogado. Será que poderia esclarecer como se processavam as relações entre o Partido, e os advogados que obtinha para a defesa dos seus militantes, nomeadamente no que se refere aos deveres de sigilo destes ?

Enviei-lhe em e-mail a seguinte resposta :

Os advogados do PCP que acompanhavam os processos políticos eram em primeiro lugar militantes do PCP e só depois advogados no sentido formal do termo . Isso tem sentido na época e pareceria bizarro a qualquer membro da oposição que fosse de outro modo . O mesmo procedimento tinham os advogados da oposição que não eram do PCP mas que divulgavam pelos canais que possuíam as informações que consideravam relevantes no âmbito da luta política em curso . O que se passava é que ninguém considerava legítimo todo o processo da "justiça" do regime , que era completamente iníquio , com declarações obtidas sob tortura e procedimentos legais inaceitáveis numa democracia .
Os Tribunais Plenários , que substituíram os Tribunais Militares , no julgamento dos opositores ao regime , viviam das declarações obtidas sob tortura e dos testemunhos dos PIDEs que a praticavam . Conhecem-se cenas absurdas ocorridas em pleno julgamento , que mostravam o grau de politização dos juízes , que actuavam como funcionários do regime .”



Avelino Pereira autorizou-me a divulgação desta correspondência e acrescentou o seguinte :


A questão no entanto, prende-se não propriamente com a justeza do processo, cujas iniquidades são conhecidas, mas antes como se colocariam os advogados, face aos interesses em jogo no processo penal. O Dr. Palma Carlos era, ao que sei, tido como um excelente advogado, com reputação intocável. Como poderia então acusar os seus clientes, de comportamentos impróprios no interrogatório ? Como poderiam estes aceitar ser defendidos por alguem que sabiam iria transmitir os seus " pecados " ( todo o homem tem pecados ) aos chefes do Partido ? Isto, em boa verdade, nada tem a ver com a justeza do processo. Nos dias de hoje, sobretudo para alguem que não viveu os tempos anteriores à revolução, é tudo dificilmente compreensível

Comentário

Eu próprio tive ocasião de discutir esta questão com o o dr. Palma Carlos em entrevistas que lhe fiz nos últimos dois anos antes de falecer . O conhecimento dos autos de perguntas era um elemento crucial da informação que o PCP necessitava para julgar o comportamento dos seus militantes e identificar as quebras de segurança que poderiam afectar a sua organização . Por isso , essas informações circulavam , insisto , não apenas vindas dos advogados que eram comunistas , mas em todos os advogados da oposição que defendiam os presos polítcos . O pressuposto de legitimidade dessa prática vinha de se considerar que quando um preso atravessasse o limiar do que era considerado “traição” – uma colaboração sistemática e voluntária com a PIDE para além da fraqueza das declarações sob tortura – nenhum advogado da oposição defenderia esse preso.
Isto não significa que não tenha havido casos em que determinadas declarações de há muito conhecidas , tenham sido divulgadas posteriormente no âmbito de ataques políticos a personalidades que o PCP queria marginalizar na oposição , depois de terem sido expulsas do partido . Foi o caso de Fernando Piteira Santos , cujas declarações de 1945 que tinham dado origem a uma sanção leve em 1946 , foram depois utilizadas na intensa campanha que o PCP conduziu contra ele depois de 1949-1950 . O partido tinha cópias dos autos de perguntas que divulgou selectivamente .

Acresce que para muitos presos os advogados não eram vistos como “advogados” no sentido de que a sua intervenção iria ter qualquer influência na “defesa” . A ideia de que houvesse “defesa” no sentido estritamente jurídico , particularmente nos casos de funcionários , era-lhes de todo alheia . A verdadeira defesa era a que o próprio fazia na tradição comunista , com um discurso de teor político , do género dos publicados pelo PCP no volume A Defesa Acusa . O advogado era muitas vezes o camarada político ou o correlegionário de luta , fosse comunista ou oposicionista , e o elo que o preso tinha com o partido .


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NOTAS BIOGRÁFICOS DE FUNDADORES DO PCP

Raúl Batista

Metalúrgico (torneiro de metal).
Editor em 1912 do Jornal Germinal de Setúbal. Preso em 1919, foi signatário do primeiro manifesto da Federação Maximalista. EM 1921 fez parte da Comissão Geral de Educação e Propaganda do PCP e, na crise do partido de 1923, apoia o grupo de Rates. Participa no I Congresso do PCP em 1923, de que permanece activista em 1924.
Como activista sindical fez parte da comissão técnica do Sindicato Unitário das Classes Metalúrgicas de Lisboa.

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NOTAS BIOGRÁFICAS

Notícia necrológica de João José Gomes , oposicionista , activista das campanhas eleitorais desde os anos cinquenta e fundador do PS .

EXP

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CENSURA

José Brandão escreve sobre OS LIVROS E A CENSURA EM PORTUGAL incluindo uma lista de livros proibidos ( por curiosidade inclui os meus dois primeiros livros ) . O texto está em VIDAS LUSÓFONAS

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NOTAS BIOGRÁFICAS DE FUNDADORES DO PCP

Artur Batista Vieira Bastos

Empregado do Comércio e, depois de 1924, patrão (comerciante?). activista, mutualista e associativo , faz parte da direcção do Montepio Aliança, e como delegado do cofre de assistência dos Caixeiros Portugueses, pertenceU ao Conselho federal da Federação portuguesa dos empregados do comércio. Colaborou em Era Nova entre 1919 e 1921.
Fundador do PCP participou nas suas reuniões de formação tendo feito parte do centro comunista de Lisboa em 1922. EM 1923 participa na conferência de 4 de Maio e por ter apoiado Rates é “expulso” pelo grupo de Caetano de Sousa. Nesse mesmo ano é delegado ao I Congresso para a Comissão central do PCP, mas não chega a tomar posse (?). Após 1924, não se conhecem actividades no partido.

(JPP)

QUALQUER INFORMAÇÃO SUPLEMENTAR SERÁ BENVINDA

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NOTAS BIOGRÁFICAS DE FUNDADORES DO PCP

Carlos de Araújo

Arsenalista do Exército, militante sindical. Membro fundador do P.C.P., um dos principais organizadores do C.C. de Lisboa, foi a figura central do primeiro grande conflito com a C.G.T. A sua defesa das posições do partido, quando membro da U.S.O. de Lisboa, levou-o à irradiação da C.G.T. e posteriormente ao impedimento da sua participação no III Congresso Operário, para que tinha sido mandatado pela Associação dos Correeiros. Tornou-se então um dos mais críticos membros do partido face à dominação anarco-sindicalista da C.G.T.. O seu papel no PCP, principalmente na organização de Lisboa, foi fundamental em todo o período da I República. Foi membro da direcção do C.C. de Lisboa, em 1921, da Comissão Municipal Comunista em 1922, e da Federação Comunal de Lisboa em 1924. Em 1923, participou na conferencia de 4 de Março, mas apoiou Rates, o que lhe valeu ser expulso por C. de Sousa. Foi delegado do I Congresso pela Comuna Delescluz. Em 1925-6 liga-se à Esquerda Democrática, abandonando o partido e , posteriormente ao 28 de Maio , adere à União Nacional.
(JPP)

QUALQUER INFORMAÇÃO SUPLEMENTAR SERÁ BENVINDA

24.5.03

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EM MEMÓRIA


Gostava de colocar nestas páginas duas pequenas biografias de José Alexandre Magro ("Ramiro da Costa" ) e Manuel Sertório , os dois lembrados amigos da equipa inicial dos Estudos sobre o Comunismo que já morreram . Quem tiver elementos para essas biografias podia usar o e-mail em cima para mos enviar . Devida nota da autoria será feita .

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NECESSIDADE DE UM DICIONÁRIO BIOGRÁFICO DO MOVIMENTO OPERÁRIO PORTUGUÊS


Não existindo em Portugal nada de semelhante ao Maitron , parecia-me interessante utilizar este meio para um primeiro esforço colectivo de recolha de elementos biográficos . Uma das maneiras por onde se poderia começar era o registo actualizado das necrologias que vão sendo publicadas na imprensa nacional e regional e que retratam a vida de tantos militantes obscuros sobre os quais essas notícias são um primeiro ponto de partida . Eu já faço isso , mas dificilmente cubro mais de 10% da imprensa regional . Este é um dos casos em que o blog poderia ter vantagens para cobrir todo o país onde há quem siga com atenção esta forma de intervenção na Net . Gostava de saber a vossa opinião e se podemos começar a estabelecer uma rede de contactos .

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NOTAS BIOGRÁFICAS

Página sobre José Carlos Ary dos Santos , poeta , declamador , militante do PCP .

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NOTAS BIOGRÁFICAS DE FUNDADORES DO PCP

Álvaro Duarte Cerdeira

Carregador e descarregador do Porto, fora deportado do Brasil em 1919. Durante a sua estadia no Brasil participara como delegado no Congresso Internacional Anarquista Sul Americano e fora membro fundador do P.C. Brasileiro, de que tinha o n.º 44. Em seguida à sua deportação esteve preso e depois de libertado ligou-se à F.M.P.. Fundador do P.C.P. no Porto fez parte dos corpos directivos do C.C. do Porto e da Comissão Municipal Comunista. Ainda em 1921 é protagonista de um grave conflito pela liderança da Associação de Classe dos carregadores e Descarregadores do Porto, defrontando uma maioria anarco-sindicalista. Em 1923 faz parte da Comissão Executiva do C.C. de Lisboa (Secção do P.C.P), organização liderada pelo grupo de Caetano de Sousa.
Desconhece-se a sua actividade posterior, embora apareça em 1929 como colaborador de O Proletário, sediado em Meknes, em Marrocos.
(JPP)

QUALQUER INFORMAÇÃO SUPLEMENTAR SERÁ BENVINDA

23.5.03

INDICE dos Estudos sobre o Comunismo 2 , I-IV 1984


Editorial - Esclarecendo

Estudos

Em tomo do 18 de Janeiro por Manuel Sertório
I - Explicação prévia.
II - A situação intemacional europeia nos anos de 1929 a 1934
III - A politica da URSS e a 3.ª Intemacional
IV - A fascização do Estado português
V - A situacão sindical, partidária a ideológica da classe operária portuguesa
no período em causa e a criação da frente única
VI-O “reviraIho” e o "18 de Janeiro".
VII - A jornada do "18 de Janeiro"
VIII - Porquê a Marinha Grande ?
IX - Os objectivos da jomada
X- Os baIanços do "18 de Janeiro”
XI - Algumas conclusões
Bibliografia

Dossier

Acta da Conferéncia do PCP de Abril de 1929 - lntroduçâo e notas de José Pacheco Pereira

Acta da conferência

A actividade sindical do `POP no Porto, Beja e Faro em 1931 (Textos de -.”0 Trabalho Sindical") - lntrodução e notas de Maria Goretti Matias

Resolução da COMSIND sobre a actividade sindical do Partido no Porto

Actividade Sindical do partido em Beja (Resolução da COMSIND )

ResoIução da COMSIND sobre a actividade sindical do partido em Faro

As primeiras liçôes da jornada de 18 de Janeiro - Introdução e notas de António Ventura

Das ilusões anarquistas e reviralhistas no seio dos trabalhadores a frente única
independente da classe contra classe (As primeiras lições da jornada do 18 de Janeiro) - Secretariado do Partido Comunista (Secção Portuguesa da Internacional Comunista).

O 18 de Janeiro de 1934 (excerto de uma entrevista com Júlio Fogaça) - Entrevista, introdução e notas de António Ventura

O 18 de Janeiro de 1934 no Barreiro - Entrevista com Francisco Augusto Ferreira ("Chico da Cuf") - Entrevista, introdução e notas de António Moreira

Obituário

Manuel Guedes - por J. Lopes Cordeiro

Maria Lamas - por Fernando Rosas

José Carlos Ary dos Santos - por J. Pacheco Pereira

llidio Machado - por J. Pacheco Pereira

Peng Shuzhi - por Francisco Louça

José Bergamin - por J. Lopes Cordeiro

Gustavo Machado - por J. Pacheco Pereira

Evgeny Gnedin - por J. Pacheco Pereira

Valentin Gonzalez ("El Campesino") - por J. Lopes Cordeiro

Yusuf Mohamed Dadoo - por J. Pacheco Pereira

Konstantin lvánovitch Zarodov - por J. Pacheco Pereira


Crónica da vida comunista

Comité Marxista-Leninista Mao Tse Tung

Partido Comunista Português

Assembleias de Organização

Resultados eleitorais de listas da APU

O X Congresso do PCP - Documentos do X Congresso (Extractos)

Partido Comunista (Reconstruído).

Anexo: Extractos do Bandeira Vermelha

Partido Comunista dos Trabalhadores Portugueses / Movimento Reorganizativo do Partido do Proletariado

Partido Operário de Unidade Socialista

Partido Socialista Revolucionário

Revista Versus

Anexo: Contas da campanha eleitoral de Abril de 1983



Vida do Boletim
Referências ao n.°1
Errata
Os próximos números

22.5.03

EDITORIAL DA REVISTA ESTUDOS SOBRE O COMUNISMO , Julho 1983


O estudo do comunismo e dos movimentos e partidos que dele se reclamam, tem conhecido nos últimos anos um progresso cada vez maior.
Esse progresso deve-se, no fundamental, a uma mudança de atitude consubstanciada, por um lado, pelo reconhecimento da importância de que o fenómeno comunista se reveste para a compreensão da história e da política do século XX, por outro, pelo progressivo esbatimento das atitudes de recusa ou apologética que impregnaram muitos dos estudos sobre o comunismo.
Este progresso tem ocorrido essencialmente fora de Portugal onde estudos deste tipo ainda constituem excepção. Por razões óbvias, o comunismo era impossível de estudar antes do 25 de Abril de 1974 e, por razões já menos esclarecidas, continua em grande parte por o ser depois de 1974. Mas, o interesse histórico, político e sociológico sobre o século XX português, tem vindo a alargar a curiosidade do público em geral sobre temas cujo completo conhecimento exige avanços no trabalho de investigação científica do comunismo.
Em Portugal, neste domínio, está praticamente tudo por fazer. As bibliotecas públicas não possuem a imprensa comunista, a maioria dos documentos não se encontra acessível ou permanece ignorada, não existem estudos de conjunto, nem bibliografias, nem corpos documentais. Os principais arquivos (os da PIDE – DGS e das outras organizações repressivas, os de Salazar e Marcelo Caetano, o do PCP, muitos arquivos pessoais) não estão abertos ou são de difícil acesso ao público e aos investigadores.
A publicação de revistas de estudos sobre o comunismo, em particular a recente revista francesa Communisme , constituiu para nós um incentivo para lançarmos, com as adaptações e, principalmente, as limitações correspondentes às nossas possibilidades, um boletim destinado a estudar a experiência do comunismo português numa perspectiva ampla, interdisciplinar e comparativa. A análise histórica e sociológica, o estudo das mentalidades e do comportamento eleitoral, a ciência política e análise semântica e lexical do discurso comunista, todas as aproximações são bem-vindas.
Neste boletim tentaremos também estudar essa experiência no sentido mais lato possível, privilegiando os estudos sobre a mais importante organização comunista portuguesa, o PCP, mas alargando o âmbito dos trabalhos a outras organizações, movimentos e personalidades que se reclamaram do comunismo a Federação Maximalista, os trotskistas portugueses, os grupos e partidos maoístas surgidos a partir da década de 60, revistas como O Diabo e Sol Nascente, personalidades como Bento de Jesus Caraça e outros.
Serão igualmente tratados todos os temas que sendo mais da história operária ou do estudo das ideologias, permitem perspectivar a experiência comunista e enquadrá-la na vida portuguesa do século XX, incluindo aqui o estudo das lutas operárias no período posterior à Revolução Russa, e, em particular depois de 1934, a actividade das organizações da oposição como o MUNAF, o MUD e a FPLN, as campanhas eleitorais, assim como o estudo da actividade sindical, do discurso governamental sobre o comunismo e das instituições repressivas e policiais.
Pareceu-nos igualmente que seria artificial limitar os trabalhos apenas à parte histórica e não aproveitar a possibilidade de publicar estudos abrangendo o período posterior ao 25 de Abril de 1974. Por difíceis que sejam estes estudos, é possível desde já avançar em tudo que a distanciação temporal permita, em particular, através de um tratamento cronológico, bibliográfico e documental da actividade presente das organizações comunistas.
No seu conjunto, tentaremos fornecer um trabalho compreensivo, que permita conhecer melhor o fenómeno comunista, para o qual serão bem-vindas todas as colaborações e sugestões que nos ajudem a tornar este boletim um instrumento aberto de trabalho científico.


José Pacheco Pereira
Ramiro da Costa
Maria Goretti Matias
António Moreira
Rogério Rodrigues
Fernando Rosas
Manuel Sertório

ESTUDOS SOBRE O COMUNISMO

Retoma-se aqui o projecto , já com vinte anos , da revista Estudos sobre o Comunismo , a primeira publicação que ensaiava uma aproximação académica ao comunismo e à sua história em Portugal .

Hoje parece uma coisa simples e natural , em 1983 era algo de muito polémico . Para uns, a própria ideia do estudo científico do comunismo era uma forma de o legitimar politicamente, logo considerado pouco académico e respeitável. Para outros , o interesse pelo comunismo só podia ser suspeito de ser uma actividade qualquer de espionagem política , ou uma banalização de um ideal intangível . Na altura escrevi um texto extenso sobre estas atitudes que também virá a ser colocado aqui .

No entanto , passados todos estes anos , não se torna necessário mudar nada ao Editorial do primeiro número da revista .

NOTA - A forma deste blog é ainda experimental , terá um arranque lento e irregular , e tentar-se-á que , a prazo , traduza um esforço colectivo e partilhado numa área de investigação ainda muito difícil .


EM MEMÓRIA DE JOSÉ ALEXANDRE MAGRO ("Ramiro da Costa" ) e MANUEL SERTÓRIO